Ramón Antonio Veras.
I.- Independência não, mudança de mestre
1.- Muitos latino-americanos e caribenhos têm a falsa crença de que só Porto Rico ficou sob o colonialismo, depois que os outros países se libertaram do domínio espanhol, em suas cabeças, mas o que aconteceu com vários de nossos países é que eles mudou de um mestre europeu para outro prefeito, o império norte-americano.
2.- Independência política é a autodeterminação de que um Estado goza em relação aos demais e exerce sua soberania sem limitações; perde seu conteúdo quando os governos nacionais são sustentados em economias dominadas por monopólios estrangeiros em cumplicidade com a minoria nacional.
3.- Cada Estado, dependendo das classes sociais que o controlam, executa um conjunto de métodos e formas perante os Estados estrangeiros para atingir determinados objetivos. O procedimento define os atores diplomáticos como membros de um país governado por classes que obedecem docilmente à vontade do empregador estrangeiro ou se comportam com dignidade.
4.- De uma forma ou de outra, historicamente os diferentes governos que lamentamos sofrer, estiveram sob a influência e dominação dos interesses norte-americanos, e cada um tem buscado uma forma de justificar ideologicamente a dominação estrangeira e, consequentemente, a política internacional de submissão eles assumem.
II.- Presidente Abinader, a Guerra Fria e sua política externa
5. Nos primeiros cem (100) dias de seu governo como Presidente da República Dominicana, Luis Abinader, referindo-se às relações diplomáticas de seu governo com a China e os Estados Unidos, declarou em entrevista ao Grupo de Comunicações Corripio: “Prevalece uma nova Guerra Fria: antes era a União Soviética com os EUA, agora esta nova Guerra Fria é entre a China e os EUA, com situações diferentes, porque antes não havia empresas russas interessadas em investir nesses países, e a China tem uma economia mista muito dinâmica. Deve-se levar em conta que o principal parceiro comercial da República Dominicana são os Estados Unidos, fato que ele deixou claro desde o início às autoridades chinesas, às quais reiterou seu respeito. Temos dois milhões de dominicanos e seus descendentes nos Estados Unidos; é o nosso principal parceiro comercial, e devemos ter uma relação estratégica, como também disse ao embaixador chinês antes de assumir o poder como candidato.” El Caribe, 26 de novembro de 2020, página 10
6.- Abinader, referindo-se à Guerra Fria, dá a entender que os Estados Unidos foram anteriormente vítimas da União Soviética e agora da China. Mas verifica-se que à luz da realidade dos fatos históricos, foi o império norte-americano que travou, não só a Guerra Fria, mas diversos tipos de guerras, nas quais é necessário levar em consideração qual classe social exerce Que objetivo político as classes dominantes e os oprimidos buscam? Portanto, temos:
a.- Guerras justas e injustas ocorreram e ocorrem. É justo, toda guerra dos oprimidos contra os opressores, a dos escravos contra os donos de escravos; a dos camponeses contra os proprietários; a da classe operária contra o capitalismo e a dos povos oprimidos contra as potências coloniais. Assim, temos os exemplos do Vietnã defendendo sua unificação e soberania; a de Cuba em Girón, defendendo-se da agressão e a de 28 de abril de 1965, o povo dominicano repeliu a intervenção norte-americana.
b.- As guerras injustas, as de presas, as levadas a cabo pelas potências coloniais para anexar territórios ou saquear recursos naturais.
c.- Guerras de baixa intensidade, entre as quais se destacam as guerras bacteriológicas, realizadas pelos Estados Unidos contra os povos do Vietnã e de Cuba para destruir sua economia agrícola; as implementadas contra os governos de Cuba, Venezuela e Nicarágua, com o objetivo de desestabilizar com a Guerra dos Nervos, Guerras Psicológicas e Guerras de Preços, como é o caso da Venezuela pela inflação do dólar, e outras que se destinam a causar desconforto no população contra governos democráticos.
d.- A guerra patriótica, do povo soviético contra a Alemanha fascista e o Japão imperialista;
e.- Guerra civil, que é a continuação e recrudescimento em certas circunstâncias da luta social e de classes em determinados países.
f. A Guerra Fria, à qual o Presidente Luis Abinader se referiu, é aquela travada pelo império através de ações que criam tensão nas relações internacionais e preparam o terreno para a guerra direta, como, entre outras, a recusa em negociar disputas, a defesa de métodos de imposição e pressão a partir de posições de poder, a restrição das relações comerciais com países com sistemas sociais diferentes, a espionagem, etc. Esta é a guerra que o império trava hoje contra a China. Quanto a Cuba, nunca se tratou de uma Guerra Fria, mas sim de uma guerra quente de todos os tipos, com o objetivo de destruir a Revolução Cubana, algo que não conseguiu alcançar em quase 60 anos.
III.- Por ser o principal parceiro dos Estados Unidos, não nos obriga a ajoelhar-nos
7.- O facto de um país ter um parceiro primário ou secundário pouco importa para efeitos de preservação da independência, do interesse nacional e da autodeterminação. O tratamento entre os parceiros é medido pela conveniência comercial e respeito a ambos.
8.- Nas nossas relações comerciais com a China, os empresários dominicanos são os mais interessados no mercado interno e nos negócios internacionais e, presume-se, tinham pleno conhecimento dos acordos diplomáticos e comerciais que foram celebrados com a China, em cujo país muitos nos seus Visita a empresários, empresários e políticos, as autoridades chinesas trataram-nos como príncipes, por isso hoje não podem alegar desconhecer os pactos que se fazem com o país asiático a nível comercial.
9.- A República Dominicana, por ser pobre e ter relações com uma superpotência econômica, não é obrigada a se render. Os laços diplomáticos são estabelecidos na base da reciprocidade, não levando em conta a obediência à insolência e a imposição baseada no poder ou dominação imperial.
10.- Ser parceiro comercial do império não significa renunciar à soberania nacional. Ele pode ser associado sem que isso resulte em entrega. Produtos materiais e culturais são negociados, não os princípios de identidade, autodeterminação e soberania. Os associados, independentemente de riqueza ou pobreza, são sócios, cada um preservando sua independência sem dobras.
11.- Um grande número de habitantes e uma grande extensão territorial não justificam a subjugação do país poderoso nas relações com outro território e um número limitado de nacionais. Quem se une por um objetivo é porque, presume-se, busca em comum e contribui de acordo com suas possibilidades.
IV.- Os dois milhões de dominicanos e descendentes nos Estados Unidos. Imigrantes haitianos em nosso país
12.- O capitalismo desenvolvido se beneficia da mão de obra barata dos imigrantes, ou nos países onde instala indústrias de zona franca. Em qualquer caso, a compra de força de trabalho gera mais-valia. A desigualdade de desenvolvimento torna possível a exploração dos países ricos aos mais pobres.
13.- Não foge ao conhecimento do Presidente Luis Abinader que enquanto existirem desigualdades no desenvolvimento econômico, a emigração continuará a ser uma fonte de exploração de países pobres como o nosso, por países mais ricos como os Estados Unidos.
14.- O fenômeno migratório, que é consequência do desenvolvimento desigual de dois países, explica a presença de milhões de nossos compatriotas vendendo sua força de trabalho ao capitalista norte-americano. A miséria, a fome, a falta de mercado de trabalho, levam nosso povo a se inserir no amplo campo de trabalho que o império oferece a todos os que emigram. Por ser país apêndice dos Estados Unidos, nosso trabalhador vai para um país que não é o seu, sofrendo as dificuldades e limitações impostas pelo clima e pela língua, duplo roubo de salários e discriminação por ser hispânico, caribenho ou pele negra.
15.- Para entender a emigração de dominicanos aos Estados Unidos, basta analisar a situação em que se encontra uma grande força de trabalho haitiana em nosso país, que só pela necessidade de receber um salário para subsistir corre o risco de vir aqui e ter que suportar a intolerância racista de quem odeia o negro com a mesma força que os pobres.
16. No capitalismo, à medida que a máquina substitui o ser humano, o exército de reserva de trabalho aumenta, a mais-valia se acumula e o capital expande sua esfera de operações. A reserva de mão-de-obra é reduzida até que seja necessária, e é quando o empregador sai à procura de uma nova mão-de-obra para explorar, e a encontra no imigrante, nas donas de casa, nos reformados e nos jovens.
Raciocínio final
a.- O Presidente Luis Abinader, por sua inteligência, formação intelectual e acadêmica, está ciente de que a questão da imigração, como fenômeno internacional na atualidade, favorece sobremaneira o país anfitrião. Como exemplo, temos nos Estados Unidos os produtores agrícolas e aqui o setor agrícola e de construção.
b.- O Presidente, em seus primeiros cem (100) dias de mandato, levando em consideração os quadros em que se moveu, dentro da crise econômica, social e sanitária, fez o que o modelo econômico retrógrado que sofremos permite. .
c.- No que diz respeito à política externa, a Abinader tem se comportado de forma inadequada, colocando nosso país como um aliado incondicional dos Estados Unidos, o que parece muito feio no século XXI, e mais a partir de um país historicamente atingido pela política do império norte-americano.
